A Palavra de Deus: fonte única da Revelação Divina

As palavras inspiradoras da Constituição Dogmática Dei Verbum lançam luzes na nossa compreensão a respeito da Palavra Deus, lembrando que esta deve ser a alma dos estudos teológicos, e consequentemente da vida cristã. Nesse sentido, as Sagradas Escrituras são essenciais para “iluminar as inteligências, robustecer as vontades, inflamar os corações dos homens no amor de Deus” (DV 23). Por isso, ainda no espírito do Vaticano II a incisiva afirmação de que o “Magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço...” (DV 10), não deixa dúvidas sobre importância da Palavra na vida eclesial.

Certamente, essas afirmações lapidares do Concílio Vaticano II foram aplaudidas por homens e mulheres de diferentes confissões cristãs, pois tornam evidente que na Igreja Católica a Palavra de Deus tem sua supremacia e lugar incontestável. Contudo, não é possível permanecer na Sola Scriptura, máxima dos reformadores protestantes do século XVI, que guia o imaginário protestante, pois a compreensão católica é mais ampla em sua concepção de Palavra de Deus.Assim, se faz necessário ter uma reta compreensão do que são as Sagradas Escrituras e qual a sua relação com a Palavra de Deus. As Sagradas Escrituras são a consignação escrita, por inspiração do Espírito Santo, da Revelação Divina, ou seja, da Palavra de Deus. E a expressão máxima da Revelação Divina é Jesus Cristo que revela o Pai e o ser humano a si mesmo. (cf. GS 22).

Nessa perspectiva, a Revelação Divina encontra em Cristo simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a Revelação (cf. DV 2), assim, se a Revelação é a manifestação da Palavra, essa Palavra é Jesus Cristo. Com isso, entende-se as últimas afirmações pontifícias de que a Palavra tem um rosto, Jesus, o Cristo. A Palavra não é uma idéia abstrata do Divino, ou um conjunto de normas doutrinárias, mas uma pessoa, com quem o ser humano se encontra e transforma-se. Seguimos, somos discípulos de uma pessoa, Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, e não de um livro; não somos religião do livro, mas da Palavra, que é Jesus.

Somente assim, clarifica-se o pensamento de von Balthasar de que “a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus que atesta a Palavra de Deus”, ela é Palavra de Deus (livro) que atesta a Palavra de Deus que é Jesus. Então, se Cristo é o Verbo (a Palavra) que se fez carne, e esta revelação está consignada nas Sagradas Escrituras, é evidente que as Sagradas Escrituras são Palavra de Deus, no entanto, essa Palavra ultrapassa a própria Sagrada Escritura, assim o Sola Scriptura, seria uma forma de restringir a Revelação aos textos escritos, quando o próprio evangelista São João lembra que muitas outras coisas foram realizadas e que não foram escritas (cf. Jo 21, 25), uma prova de que a Revelação ultrapassa os Livros Sagrados.

Nesse sentido, é possível afirmar sem nenhum erro de fé que as Sagradas Escrituras são Palavra de Deus, contudo a Palavra de Deus vai além das Sagradas Escrituras e está presente também na Sagrada Tradição, constituindo um único depósito da fé (cf. DV 10). Dessa forma, contraria-se o pensamento corrente de que existam duas fontes da Revelação, a saber: as Sagradas Escrituras e a Sagrada Tradição; tal forma de pensar não condiz com a verdade da fé, e assim concordamos com nossos irmãos separados de que existe uma única fonte da Revelação, entretanto, essa única fonte está presente nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição, conforme ensina o Concílio Vaticano II, em plena sintonia com o Concílio de Trento. (DZ 1.501)

Tendo clarificado a questão, é preciso concluir que mais que Sola Scriptura , o conceito católico de Revelação fundamenta-se na máxima Solum Verbum Dei, ou seja, só a Palavra de Deus, presente nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição.

Pe. Agnaldo Rogério dos Santos

Outros Artigos

Mais Artigos
Paróquia Imaculada Conceição - Diocese de Piracicaba
Rua Salvador, 662 - Cidade Nova - Santa Bárbara d’Oeste, SP - CEP 13454 355
Fone 19. 3458 4430
Fale Conosco Siga-nos no Facebook